
Não senti medo
Não senti as mãos a tremerem
Nem senti que andássemos em câmara lenta
E isso fez-me sentir que estava a ser guiada
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Consegui acudir uma pessoa dentro de um carro capotado.
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A visão é aterradora, mas fui invadida por uma calma que me permitiu ajudar com consciência dos meus actos.
As portas estavam trancadas e eu fui a 2ª pessoa a chegar, enquanto a 1ª pessoa (homem) corria a pé em direcção ao carro, eu encostei o meu carro e corri também.
O senhor de idade estava consciente e não estava ferido, mexias as pernas e os braços, debatia-se para tentar sair, assustado.
Sentiu-se assustado, sem compreender como tinha acontecido o acidente (sózinho).
O carro estava trancado, mas felizmente era um carro antigo e a porta da bagageira estava aberta, foi por aí que consegui baixar os bancos dando espaço para que o outro senhor conseguisse baixar o banco do velhote, de forma a se conseguir puxá-lo para fora do carro.
Entretanto chegou um carro da polícia prisional e ao vê-lo pedi que ajudasse a puxar o senhor (pois pesava muito e o guarda prisional tinha "bom cabedal").
Conseguiu.
Coloquei a alcatifa do porta bagagens no chão para sentarmos o senhor.
Nessa altura chegou uma enfermeira que falava com o senhor e disse que não havia necessidade de o deitar).
Alguém chamava o 112.
Tirei o triângulo e coloquei-o na via de forma a trancar a estrada - que é estreita.
O senhor disse que tinha uma filha mas que não era preciso chamá-la, para ela não se preocupar.
Estava muito preocupado com o estado do carro.
Alguém disse - eu não tenho saldo quem é que pode ligar para a filha do senhor?
Eu! disse imediatamente eu.
Nessa altura vi aquilo que nunca tinha vivênciado... um molho de uma dúzia de pessoas a dissipar-se.
O cartão era antigo e o número do local de emprego da filha já não existia ou estava desactualizado, porque ninguém atendia de nenhum dos 2 números do cartão.
Chegava a ambulância do INEM e o carro dos Bombeiros.
Liguei para um outro Hospital do mesmo grupo e consegui o novo número.
Liguei e esperei até que me atenderam. Expliquei a situação de acidente de capotamento com um senhor de idade, depois da telefonista me confirmar que a filha trabalhava lá, mas que há 6ª feira não. Que bom, pensei eu! Voltei a explicar à telefonista que era necessário que um familiar se responsabilizasse pelo senhor. Deixou-me á espera mais de 6 minutos e acabou por me dizer que não podia dar o contacto da filha, mas que eu lhe deixasse o meu contacto que ela iria tentar contactar a filha do sinistrado.
O paramédico perguntava-me se já tinha conseguido falar com a filha.
Ouço alguém comentar que o senhor já tinha 92 anos e que não compreendiam como ainda conduzia.
92 anos?! nunca pensei que tivesse tanta idade.
O senhor J estava consciente, falava bem, tinha a pressão só um pouco elevada e continuava a não querer que falássemos com a filha.
A GNR já estava no local.
Liguei ao meu pai para me dar o número da assistência em viagem da companhia de seguros do senhor J, que apenas tinha os dados do exterior da viatura.
Voltou a ligar-me e eu anotei o número.
Liguei para a assistência em viagem. Perguntas sem sentido após explicar a situação complicada de capotamento. Ficaram com os meus dados que me voltavam a contactar.
Junto à ambulância o GNR confirmava que a carta de condução do senhor J caducava em Abril.
5 minutos depois recebia o telefonema deles onde insistiam que tinham que saber o nome do senhor, corri para a ambulância e confirmei o nome, perguntava alguém do outro lado da linha para que oficina queria que o carro fosse, aqui eu recusei-me e voltei a explicar a situação do acidente, ao que a moça me respondeu que o senhor tinha o seguro da ACP e que iriam enviar o reboque, depois logo diriamos para onde deveriam levar o carro.
Ao olhar para dentro da viatura vejo uns cadernos e tendo em conta que o senhor J não tinha telemóvel, pedi ajuda ao bombeiro para ir dentro do carro ver os cadernos.
Ele tirou-me os cadernos e deu-mos.
Ao folheá-los rápidamente mas atentamente pude-me aperceber que o senhor J tinha uma visão óptima pois escrevi direito cartas, memorandos, notas e até jogos com números, em tamanhos bem pequeninos alguns deles, com vários bolhetins de totoloto.
No 2º caderno, a meio estava uma carta onde no fim dizia "a minha querida filha 21------".
Liguei directo.
Atendeu a empregada, expliquei que tinha havido um acidente com o senhor J, que estava bem mas que precisava de falar com a filha.
Ouço alguém a correr e um "tou!", calmamente disse "dona T peço desculpa, mas houve um acidente de carro com o seu pai, ele está bem não tem qualquer ferimento, mas precisamos de um familiar ...", "sim onde é que está o meu pai?! mas ele está mesmo bem? por favor não deixe que levem o meu pai para o hospital CCG que eu vou já para aí! por favor eu não conheço isso diga-me por favor como eu vou para aí" "pela auto estrada".
Comuniquei à GNR, aos Bombeiros e ao Inem que já tinha encontrado a filha e que ela vinha já.
Trânsito cortado, transeuntes curiosos e a opinar sentenças idiotas.
Os bombeiros e os GNRs conseguiam virar o carro e empurrá-lo.
Caiu direito, empurraram-no para a berma (junto ao meu carro).
O INEM estava inquieto porque não podiam esperar mais.
A filha ligava para mim constatemente.
Perdeu-se, um amigo meu que morava lá perto tentou explicar à filha como ela podia encontrar o caminho.
Pior a emenda do que o soneto...
Entretanto vejo os bombeiros a entrarem dentro do carro e a dizerem-me que a ambulância vai para o Hospital e que não podem esperar mais.
A filha ao ouvir gritava do outro lado, para que eu não deixasse, que aquele hospita era terrível, que ela levava-o onde ela trabalhava e que lhe fazia os exames todos.
Corri e não vi a ambulância.
A filha não sabia explicar onde estava.
Sentia-a nervosa, sabia que estava a conduzir.
Tentava acalmá-la, ela perguntava imensas vezes se o pai estava mesmo bem, sim está!
Vi a ambulância que afinal tinha se encostado na berma e aguardava por mim.
Pedi-lhes para esperarem só mais um pouco, pedi ajuda ao GNR para orientar a filha até ali, então ele falou com ela e foi ter com ela.
O paramédico conversava comigo que se o senhor J não estivesse assim bem ele nunca poderia esperar.
Nessa altura chegava o reboque, tive que ir tirar o meu carro para que ele pudesse levar o carro.
A chave estava com o GNR que tinha ido buscar a filha, a oficina a filha já lhe dizia qual.
Chegam eles, vou para junto da ambulância.
O carro da filha pára atrás da ambulância e corre para abraçar o pai que estava fora da ambulância de pé.
Ela olha para mim e diz "é a Diana?", sou digo eu e recebo em troca um abraço apertado e um muito obrigada dito com a alma.
Percebi apenas naquela hora que a filha já era uma pessoa de idade e lembrou-me de ter pensado que deveria ter ido ter com ela em vez de lhe ter dado instruções por telefone. Era mais do que normal ela estar nervosa demais para processar informações de caminhos.
Mas estava tudo bem.
O reboque encostava mais à frente já com o carro.
Ajudei a abrir a porta para colocar o senhor J dentro do carro da filha T.
Sou médica, dizia ela aos paramédicos e autoridades, e vou levá-lo já para o HC para fazer uma TAC e uns exames.
Despedi-me e vi naqueles olhos de filha uma gratidão verdadeira.
Desejei um resto de bom trabalho aos GNRs e aos paramédicos e fui para o meu carro.
Hoje enviei um sms à filha-doutora-T a perguntar se tinha tudo corrido bem com o pai J.
Ligou-me a agradecer mais uma vez, disse que tinham feito todos os exames e que o pai J estava muito bem, voltou a agradecer dizendo que já não há muita gente como eu, disposta a ajudar. Disse que ela era médica, o marido também e o filho era advogado, se eu algum dia precisar de alguma coisa, que lhe ligasse que ela teria todo o gosto em ajudar. Agradeci e disse que o importante era o pai J estar bem. Um bom ano e muita saúde e obrigada! foram as últimas palavras que lh ouvi.
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Retiro de todo este episódio da minha vida os seguintes ensinamentos:
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- em acidentes existem muitos mais curiosos neutros e curiosos maus, do que pessoas dispostas abdicar do seu tempo e alguns euros (gastei 1h30 do meu tempo e mais de 5€ de saldo do telemóvel para verdadeiramente - ajudar!
- em acidentes esse tipo de curiosos fazem histórias inventadas, dão nomes falsos às vítimas, inventam-lhes moradas, matam-lhes familiares, querem ver não sei bem o quê, sem interesse nas vítimas. Hoje ligaram-me a dizer que já se dizia pelos cafés que o senhor J tinha morrido (dái o motivo incluso do meu sms hoje para a filha T)
- Num acidente não é preciso público mas sim gente que ajude! Quem estiver a mais é favor seguir a sua vida! Quando precisaram de ajuda para virar o carro, tudo ficou parado de braços cruzados a ver, sem dar uma ajudinha!
- Tanta gente a olhar e a ocupar espaço sem necessidade!! não lhes consigo dar justificação para tal acto! juro!
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- Ao ver e presenciar o que vi e senti ontem, pude confirmar aquilo que a filha T me disse hoje, mas só espero, tal como lhe disse a ela, que se eu ou algum dos meus um dia precisar de ajuda, que esteja no local alguém guiado como eu fui ontem, capaz de verdadeiramente ajudar.